Fabi dá risada quando peço uma sandália número 38 para o moço da loja.
– Você é tão engraçada, Camila. Fala logo seu número verdadeiro pra ele.
Olho para minha amiga confusa, o moço espera um novo número sair da minha boca, mas tudo o que consigo dizer é:
– 38
Faço que sim com a cabeça para que ele acredite em mim, para que ignore Fabi e sua risada, e ela só para de rir quando ele vai embora.
– Peraí, você não pode estar falando sério, Camila. 38? Você não pode calçar 38!
Dessa vez sou eu quem dá risada.
– Não posso? Fabi, esse é meu número.
– Não, não é, Camila.
– Mas… o que é isso, algum jogo? É uma piada nova, tipo como a geração z inventou mil formas de falar juro?
– É, nesse caso você jurou neh, Camila.
Fico em silêncio, espero o moço chegar com a sandália, apenas ela seria a prova de que meu número era mesmo 38. Porque ela estava falando aquilo, PORQUE eu iria MENTIR meu número?
O moço chega, se ajoelha na minha frente, me dá a sandália.
Coloco a sandália nos pés satisfeita, olhando Fabi por cima do queixo.
Ela tem as sobrancelhas levantadas, como se dissesse “viu”. Mas não sei do que ela está falando, a sandália entrou no meu pé.
Ela verbaliza a expressão.
– Viu, Camila, falei. 38 é pequeno pra você.
– O que, mas meu pé entrou. Eu calço 38, Fabi.
– Camila… – Ela aponta para o meu pé – Olha o segundo dedo do seu pé, ele está torto, virado para o lado. Significa que está sendo apertado.
Olho para meu dedo, ele é mesmo torto, como ela fala, mas Fabi não sabe que ele é assim mesmo SEM a sandália. Tiro a sandália e fico de pé, para que ela veja meus dedos.
– Meus dedos são assim mesmo, Fabi. Olha.
Fabi olha para meus pés como se eles fossem monstros, os olhos tão abertos que tenho medo do tempo que ela fica sem piscar.
Ela respira fundo, depois junta as mãos, como se fosse fazer uma oração.
Amiga, – Sim, ela me chama de amiga, a palavra que usa quando quer me dar uma notícia horrível – … você sabe que isso não é normal, não sabe? Dedos não são naturalmente tortos. Isso é sinal que você está apertando seus pés há muito tempo.
– Como assim, todo mundo tem os dedos dos pés tortos para o lado. Deixa eu ver o seu pé.
Fabi tira o sapato, depois a meia, e seus dedos retos aparecem no chão, o que me embrulha o estômago. Eu nunca tinha visto algo tão horrendo. Dedos retos, RETOS! O que era aquilo?
– Fabi, porque seus dedos são retos?
– Porque EU calço 38, Camila.
– O que, mas eu também!
– Camila, você é quase 15 centímetros mais alta que eu. Não pode calçar 38.
– Eu não sou tão mais alta…
– Camila, você tem quase um e oitenta. E tenho um e sessenta e tantos. Que sentido faz a gente calçar o mesmo número?
– Ahm….
Tento argumentar, mas realmente, fica difícil vendo os dedos estranhamente retos dela e até respiro fundo, tentando pensar em algo, mas aí vejo o moço da loja olhando para o meu pé com a mão na boca. Encolho meus dedos dos pés, tortinhos. Fabi segue falando.
– Amiga, coloca a sandália de novo, olha só… – Ela espera eu calçar a sandália, o que demora um pouco porque o moço segue lá, com a boca coberta, mas depois de um minuto eu faço o que ela diz. Ela segue falando que… – Tá vendo como a lateral do seu pé está quase na costura da sandália? Um pé 38 não chega aí, para á dois centímetros desse ponto. E olha o seu calcanhar, a parte redonda nem cabe na sandália…
– Mas é a forma desse sapato.
– Não, Camila, seu pé que é maior. Você calça 40, com certeza.
– O QUE? 40?
O moço saltou com meu grito, mas depois fica em silêncio, fazendo que sim com a cabeça, a boca fechada.
Não consigo aceitar, argumento.
– Mas 40 é tamanho de pé de homem, Fabi.
– Camila, você tem quase um e oitenta, você é uma mulher com o tamanho de um homem.
– Para!
– Mas Camila, você é grandona mesmo, sempre foi! O que é isso agora? Porque está calçando um número menor?
– Eu não estou eu… eu sempre achei que calçava 38, todos os meus sapatos são 38.
– E todos eles te machucam?
A pergunta dela me acerta em cheio no estômago, não sei que expressão colocar no rosto. Sim, todos os meus sapatos tem uma forma pequena, mas é a forma, eu dei azar na hora de comprar, e quanto mais argumento na minha cabeça, mais me sinto patética.
40 é o número que vem voando até mim, para em cima da minha cabeça, como se fosse uma coroa. Eu era mesmo daquele tamanho?
Compro a sandália 40, saio da loja com a sacola e com o número, tão tão pesado. Mas na verdade, não era o número que era pesado, era a pergunta com ele. Porque fiz isso comigo mesma por tanto tempo?
Não consigo dizer mais nada durante aquele passeio no shopping, Fabi precisa sustentar a saída com seu carisma. E ela sustenta, e nós entramos no uber e voltamos para casa, e quando chego em casa olho meus sapatos antigos e só consigo pensar que vou precisar jogar todos fora, mas em seguida penso que foda-se, isso é um livramento.
Foi meu ex que meu a maioria desses sapatos, agora pelo menos me livro de tudo o que ele me deu.
Até o último centímetro de dor.
#Aldeia Literária