Camila Veloso

Eu não quero ficar sozinha esse ano, era a frase que eu repetia enquanto passava chapinha na minha franja pela décima vez. Eu estava na quinta-série, era 2006.

Tinha mudado de cidade pela quinta vez em seis anos, e já morava naquela cidade há um ano, sabia as regras. As meninas populares usavam fichários grandes, mochilas de lado, franja e brincos. Naquela cidade, eu já tinha observado, o legal era fazer inglês e ter o conjunto de 24 cores da Faber Castell, algo conquistável eu diria, já que nas outras cidades as crianças valorizam coisas como ter Nickelodeon em casa, comprar roupas numa loja chamada João e Maria, usar aparelhos.

Mas essas eram as crianças da capital.

Ali, no interior, eu sabia que se tivesse pelo menos uma franja, um fichário, brincos, e mochila de lado, eu seria alguém, então me dediquei no que podia. Meus pais eram crentes, muito crentes, então eu não podia usar brincos, colares, qualquer tipo de jóia.

Por isso apostei tudo na franja, fichário e mochilas de lado, tudo rosa e da Capricho (a Capricho era a única coisa que faria todas as meninas esquecerem das minhas orelhas sem brincos).

Acordei cedo, arrumei o cabelo, passei chapinha na franja e lápis preto no olho.

Cheguei cedo na escola, mais cedo que todo mundo porque meus pais eram os diretores, as outras crianças só chegavam dali a uma hora, então esperei, imóvel no sofá da na secretaria.

Imóvel, minha franja não podia ficar suada, elas precisam me achar legal, eu pensava.

Dessa vez precisa funcionar, repito.

Dessa vez eu vou ser legal.

Aquela era a minha chance porque estávamos todos indo para o ensino fundamental dois, uma grande mudança do ensino fundamental um.

Se você é novo demais para saber do que estou falando… em 2006 o sexto ano era chamado de quinta-série e era um GRANDE PASSO  na vida de todo adolescente. A quinta-série era a série em que a gente deixava de ser crianças. A gente teria aula com vários professores, e não com uma professora só, como as criancinhas do jardim.

Agora tínhamos apostilas, fichários, e não precisávamos fazer fila e dar a mão para a professora depois do recreio.

Tudo mudava na quinta-série, e por isso ACHEI que tinha uma chance melhor de ter amigos (eu já tinha falhado miseravelmente na quarta-série, um ano antes).

A hora de espera passa, as outras meninas começam a chegar, vão para a nossa nova sala. Respirei fundo.

Vai lá, Camila.

Coloquei minha mochila de lado e tentei manter um sorriso no rosto enquanto andava pelos corredores. Alguns monitores me cumprimentaram no caminho, e só acenei de leve com a cabeça, como se estivesse calma.

Chego na sala, algumas meninas já estão sentadas.

Droga. 

A escolha da cadeira era decisiva porque eu me conhecia, só ia conseguir fazer amizade com o pessoal que sentava perto de mim, era sempre assim, e  as meninas na frente estudaram comigo no ano passado.

Lara, Iara e Olívia, a santa trindade.

Lara tinha os cabelos presos em uma trança milimetricamente penteada, cheia de gel. Ela era a inteligente. 

Iara tinha os cabelos ondulados soltos, e me olhava de cima a baixo. Ela era a que tinha peitos. 

Olívia deu um sorrisinho porque os pais dela também eram crentes, mas ela só me deu um risinho mesmo. Ela não queria andar comigo, a filha do diretor, quietona.

Olho para o canto direito da sala, onde Tamara e Bruna estão sentadas. Elas eram as meninas que tinham peitos E dinheiro, e nem mesmo Iara conseguia andar com elas.

Preciso mirar nas meninas novas, que não são muitas.

As coisas aceleram a minha volta.

Mais e mais crianças andam e entram na sala, sentam sem nenhum critério, preciso ser rápida.

Olho para uma menina de cabelos pretos, olhos longos, lápis preto no olho, séria.

Me aproximo.

– Oi – É o que consigo dizer, enquanto sento na cadeira do lado dela (achei que sentando do lado teria uma chance melhor de conversar com ela).

O nome dela era Mariana, eu descobri no fim da primeira aula.

Mariana gostava de vôlei e de bandas japonesas, e deixei ela me contar tudo sobre isso. Achei que estava indo bem, sabia que as pessoas gostavam de falar de si mesmas, até que ela me fez uma pergunta.

– Acha que o Thiago beija bem?

Ela me olha curiosa e congelo. Thiago era meu crush desde o ano passado, e falar de beijo citando o nome dele era a coisa mais assustadora da minha vida. Não consegui responder, e Mariana arregala os olhos.

– Você já beijou, neh?

Novamente, não consigo verbalizar nada, mas faço não com a cabeça.

Mais tarde naquele dia, ouvi Mariana falando sobre beijos com a Tamara, a loira rica com peitos que sentava do outro lado da sala.

Mariana mudou de lugar depois desse dia.

Mas tudo bem porque a Bruna me pediu uma borracha emprestada e me deixou orbitar em volta dela por um ano depois disso.

E eu fiquei me perguntando… Como é  que adultos fazem amigos?

Talvez eu tenha uma chance melhor quando eu crescer.

 

#Aldeia Literária