Camila Veloso

Se eu disser o que ela quer ouvir, ela vai gostar de mim, foi o que a minha cabeça de seis anos de idade pensou quando a amiga da minha mãe se agachou na minha frente e  me perguntou o que eu queria ser quando crescer. Eu disse que queria ser professora, porque ela era professora, meus pais também, parecia ser a resposta certa.

E era.

Ela abriu o maior sorriso do mundo para mim e depois se levantou para falar com meus pais. Foi assim que o conceito de agradar entrou na minha lista de como lidar com seres humanos, e na verdade é uma das únicas coisas que sei que realmente funciona.

Porque eu não sei lidar com seres humanos e plantas, não sem tentar agradar.

Eu não sei me apaixonar, eu não sei negociar o preço da roupa, do sapato, a hora certa de regar as plantas e o ego dos homens. Eu não sei ser gentil com quem gosta de mim e malvada com quem não gosta, eu troco tudo. Sou gentil com quem não gosta de mim e acho que tenho a liberdade de esculachar quem me ama, repetidas vezes, não era isso que era ser vulnerável?

Não, não é.

Já tentei colocar outros itens na minha lista, algo que me ajude a lidar com os humanos à minha volta, mas eu não percebo algo, o que não me ajuda. 

Aham, algo.

Alguma coisa, algo.

As pessoas aprendem a lidar umas com as outras percebendo isso que não percebo, é um cheiro, um som, mas não é um cheiro ou um som, é um outro sentido que as pessoas tem, um que diz pra elas quando é a hora de ir embora, quando alguém tem má índole, quando o que disseram é irônico, dúbio, é um tecido aberto no céu que diz para todo mundo menos eu quais são as regras, eu sempre perco, digo algo aleatório, e não sei onde o tecido abriu, qual palavra naquele sorriso denotava o erro.

Tudo o que eu sei fazer é escrever e analisar, pensar mil vezes no que aconteceu para tentar aumentar minha lista (ou habilidades sociais).

A lista começou quando eu tinha seis anos.

Todos os dias eu chegava em casa e escrevia algo, principalmente quando eu errava. Quando eu dizia algo errado eu anotava e elaborava os motivos do porque.

Era pra ter ido embora mais cedo, era para ter parado de rir da piada, não era para ter feito piada com a morte do gato, aquilo que ele disse sobre ir para a França era mentira, ironia, algo assim, prestar atenção, atenção.

A lista foi ficando mais difícil de aumentar com o passar dos anos, principalmente quando comecei a querer beijar na boca. Era um tal de era para ter olhado para ele por mais tempo, era para ter sorriso, era para ter falado mais baixo, era para saber flertar, como é difícil, por favor, Deus, me mostra alguém doido igual eu, do contrário eu vou acabar sozinha.

Será que existe alguém como eu por aí?

Achei que criar plantas seria a solução para a minha solidão, mas elas morrem antes que eu consiga anotar quais são as regras, é pior ainda.

Plantar, regar, regar e regar, e elas morrem.

Morrem, sempre morrem, alguém me diz o que eu fiz de errado?

A diferença entre lidar com plantas e humanos é que os humanos sempre têm um erro para te apontar, o que pode ser reconfortante.

Mas as plantas… elas te deixam descobrir sozinha, mas quando você passou uma vida sem entender do que todo mundo estava rindo, descobrir sozinha é sinônimo de um ataque de pânico.

Não descobrir soinha é o segundo item da minha lista.

 

#Aldeia Literária