Camila Veloso https://camilaveloso.com.br Mon, 31 Mar 2025 20:25:25 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 https://camilaveloso.com.br/wp-content/uploads/2024/10/estrela-150x150.png Camila Veloso https://camilaveloso.com.br 32 32 SOLITUDE É O CARALHO https://camilaveloso.com.br/solitude-e-o-caralho/ https://camilaveloso.com.br/solitude-e-o-caralho/#respond Thu, 27 Mar 2025 13:27:14 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1635

Do nada o chique é ficar sozinha.

Hoje em dia, a solitude é como o quiet luxury da saúde mental, todo mundo quer mas não sabe onde compra, e só percebemos que alguém tem quando em pleno sábado a noite damos de cara com um stories de uma taça de vinho solitária, poderosa, que atesta aquilo que mais queremos: o amor por estar sozinha.

Uma pena para mim, uma patricinha que se ama, mas que não se aguenta mais.

Juro, eu claramente me amo porque criei um podcast e fico falando sozinha, e também falo sozinha com uma câmera sempre que gravo vídeos para a internet, você sabe. Por aqui temos uma experiência multiplataforma baseada no meu conhecimento e na minha capacidade de tagarelar sozinha.

Dito isso, eu NÃO QUERO ficar sozinha, porra.

Amo a minha própria companhia, mas odeio estar sozinha.

Odeio ser a minha única opção no sábado à noite.

Odeio ser a única pessoa que vai me abraçar e dizer que vai ficar tudo bem.

Odeio ser a única pessoa que vai topar ir para o Ibirapuera pedalar de tarde mesmo com previsão de chuva, porque provavelmente vai chover e nós vamos nos molhar, e pedalar na chuva gritando “uhul” é legal só na minha imaginação porque os pingos entram nos olhos e você não consegue ver nada e corre o risco de morrer.

Poxa, porque ninguém mais quer ir nesse rolê incrível?

E tudo bem, eu estou disposta a pedalar na chuva sozinha e viver meu próprio filme, mas o problema é que quando você fica sozinha, você se acostuma, e daí desaprende como se pede ajuda. Eu preciso chegar e dizer que eu não consigo fazer alguma coisa? Preciso expor traumas de infância, dizer que estou doente, sem carisma, xoxa, capenga?

MAGINA, NADA DISSO!

Eu consigo, faço tudo sozinha, olha só…. e daí acabo ficando mais sozinha, porque na vida adulta, conexões surgem do auxílio, nós já conversamos sobre isso.

Me sinto naquele filme, karate kid, tira casaco, bota casaco.

É pra ser independente ou não, porra?

E eu sei que estou misturando dois conceitos aqui, solidão com independência, mas na vida adulta das mulheres esses dois são quase a mesma coisa. 

Quando você é uma mulher forte e independente, parece que pedir ajuda não faz muito sentido. Nem para as suas amigas, sabe? É como se uma leoa aparecesse com medo de uma formiga pedindo ajuda, e daí as outras leoas olham pensando “mas ela consegue, ué”.

É assim.

Ninguém acredita na sua fraqueza, e por mais que eu odeie concordar com  todos os especialistas do Tik Tok, eu acho que isso acaba minando a sua energia sim.

Parece que precisamos escolher entre ser chique e sozinha ou ser dependente.

Ai, essa palavra tem uma vibe tão ruim.

Ser dependente é ruim, mesmo que traga amor, amigos, então na verdade, acho que estamos falando de rede de apoio.

Solitude é o caralho, todo mundo precisa de uma rede de apoio.

Até mesmo (sim) as leoas.

#Aldeia Literária

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DE REPENTE 30 https://camilaveloso.com.br/de-repente-30/ https://camilaveloso.com.br/de-repente-30/#respond Fri, 14 Mar 2025 22:29:54 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1523

30 é a idade do sucesso… fake.

A idade em que você compra o que quiser no mercado, paga o aluguel atrasado para conseguir ir no spa com as suas amigas, parcela a fatura do cartão, ninguém vai saber, você tem trinta anos. Se a sua mãe perguntar você diz que está tudo bem e depois faz hora extra no trabalho, vende a sua alma para um freela, você dá conta, já é adulta para saber que dá conta ou pelo menos paga uma psicóloga para te dizer que você vai dar conta sim.

Porque é a idade do sucesso no instagram, no tik tok, na vida real tá todo mundo meio meio fudido ainda, com problemas no estômago.

Aliás, 30 anos é a idade do estômago velho.

Você desiste do corotinho, agora é só whisky, cerveja artesanal, skol beats no mínimo, dentro de uma garrafa térmica porque você já aprendeu que não bebe rápido o suficiente para a bebida não esquentar na latinha na sua mão (ela sempre esquenta) e seu estômago não tolera mais bebida quente (mais alguém aí sentiu ânsia só de pensar?).

Além disso, tem o foda-se, 30 anos é a idade do foda-se.

Um portal mágico se abre no céu e uma frase grande desce numa cortina branca. A luz quase te cega, mas quando a cortina chega perto você vê que nela está escrito: foda-se, você pode dizer foda-se para tudo, fazer o que quiser, a vida é sua, se der errado você é a única culpada, então pra que se fingir de boazinha?

É um momento mágico.

Talvez essa seja uma revelação só para as mulheres, essa liberdade tardia de fazer o que quiser, sabe. Não sei, ás vezes parece que homens de 30 anos ficam apenas calvos e deprimidos, mas foda-se eles também. A culpa não é nossa se eles não fazem terapia, se não tomam vitaminas, se não vão na academia, poxa, ter 30 anos também é ter responsabilidade.

30 anos é a idade da responsabilidade, é por isso que eu não conto para que não fiz meu skin care de noite essa semana, que comi um lanche barato porque fui mão de vaca, que bebi aquele drink enquanto tomava antibiótico, eu tenho responsabilidade afetiva, cada um com suas coisas, sabe.

Mas tem o lado chato também, 30 anos é a idade em que você deveria ter filhos, e se você não tem, aí você começa a gostar de Sex and the City, mas tipo, muito, gostar muito, porque é um alívio ligar a netflix e ver que ali tem uma mulher de 30 anos que gastou mais de 40 mil dólares em sapatos e agora não tem onde morar porque vão vender o apartamento onde ela mora.

Esse é outro momento mágico.

Existe um conforto em saber que existem outras formas de viver, uma que não envolva um útero cheio, uma que envolva apenas boletos pagos e se perguntar se existe mais da vida do que ir trabalhar todos os dias.

Acho que existe.

Mas tenho a impressão de que só vou descobrir aos 40.

40 é a idade em que você descobre o sentido da vida.

 

#Aldeia Literária

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VOCÊ É UMA GOSTOSA E NEM SABE https://camilaveloso.com.br/voce-e-uma-gostosa-e-nem-sabe/ https://camilaveloso.com.br/voce-e-uma-gostosa-e-nem-sabe/#respond Thu, 06 Mar 2025 15:56:31 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1516

Bloco de carnaval, Belo Horizonte, 2025. 

Ela passa na frente de um carro estacionado, fica ali por um minuto para arrumar o top, o short, o cabelo, dar aquela olhada na bunda. Ela respira fundo antes de seguir andando com as amigas e tenho vontade de ir lá e dizer: parabéns, você é uma gostosa.

Será que ela sabe?

O grupo para, vão tirar uma foto, ela arruma o cabelo e assim que a foto chega ela faz que não com a cabeça. Tiram outra, na terceira ela respira fundo (vejo os ombros subindo e descendo de longe), sei que desistiu de tirar uma foto que considere boa. Duvido que ela tenha saído feia, é uma gostosa, está linda, eu sei, os quinze caras olhando para ela sabem, mas ela mesma… 

Está se olhando no reflexo de outro carro.

Eu deveria gritar “gostosa”, mas sei que um grito desses só assusta, e tento pensar em um argumento para chegar lá e dizer que ela é belíssima. 

É carnaval, será que eu preciso de argumento?

O trio começa a andar, em algum momento ficamos lado a lado, é a minha chance.

Chamo ela cutucando o ombro, ela vira.

Ofereço meu melhor sorriso.

– Você tá linda, amiga, uma gostosa!

Ela ri com as sobrancelhas tristes.

Sabe, aquela risada em que as sobrancelhas ficam tristes por um segundo, como se você tivesse recebido um elogio fofo de uma criança. Você não acredita na criança, e dá aquele sorriso. É esse o sorriso que ela me dá, mas já fiz a minha parte e sigo em frente.

Faço uma oração no minuto seguinte, peço que o universo mande todos os gays do bloco dizerem que a bunda dela é linda, que ela é gostosa, belíssima, e que ela consiga beijar um cara bonito para ter alguma validação masculina (foda-se ás vezes a gente precisa mesmo).

Depois de quinze minutos andando com o bloco, uma garota me cutuca no ombro e me diz “Você tá linda, uma gostosa”.

E só consigo pensar que receber elogios de estranhos é a melhor coisa do carnaval brasileiro.

 

#Aldeia Literária

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QUEM VOCÊ ERA NO ÚLTIMO CARNAVAL? https://camilaveloso.com.br/quem-voce-era-no-ultimo-carnaval/ Wed, 26 Feb 2025 20:04:23 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1498

No último carnaval eu era beijoqueira, e você?

Era 2022, o mundo tinha acabado de se curar da pandemia, uma garrafa de corote e glitter no olho era tudo o que eu precisava para ser feliz.

Sem água, sem engov, sem cachorro quente no final do rolê.

Eu morava no centro de uma cidade universitária, todas as repúblicas eram em volta da minha casa, e o maior bloquinho da cidade passava na avenida, também do lado da minha casa.

Era descer as escadas, pular carnaval e voltar em segurança mesmo quando eu estava tão bêbada que confiaria em qualquer pessoa que sorrisse para mim.

Foram bons anos.

Me lembro que nesse último carnaval eu disse, durante uma festa, que era meu aniversário (eu faço aniversário dia 12 de março) e alguém apareceu com uma garrafa de Velho Barreiro que eu virei na garganta por vinte segundos (era para ser vinte e sete mas eu não aguentei)

Depois disso comecei a namorar um calvo de oitenta quilos sem ambição na vida e embarquei numa jornada de redenção e aprendizados (quem nunca), e depois de ressurgir como a fênix mais gostosa que conheço, estou pronta para mais um carnaval (outro evento canônico na vida de toda recém solteira. Embora eu já esteja solteira há um ano, enfim…).

Faz três anos que não pulo carnaval e muita coisa mudou desde então.

Para começar, vou fazer 30 anos e o engov é meu melhor amigo agora. Cachorro quente antes e depois do rolê, um copo de água a cada dois drinks.

É, Camila, agora você é adulta, e pelo menos a academia ainda te salva da dor nas costas e no joelho, vai pular em paz nas festas de 2025, pelo menos isso.

Agora preciso de um penteado bem justo para me sentir bonita e uma doleira porque sou eu quem paga as parcelas do celular (antes, quando minha mãe me dava o celular de presente de natal eu não sentia tanto o valor de um celular, sabe. Eu só carregada no shorts mesmo, inconsequente, eu sei). 

Mas em minha defesa, não é só isso, é que agora preciso justificar tudo para a minha contabilidade, (alô alô, agora ela é empresária), então doleira por dentro da calcinha, shorts e uma pochete por fora com uns trocados para o ladrão que está ali trabalhando na folia, claro que sim, uai.

Não esperava passar esse carnaval assim.

Fui criada na igreja, eu achava que com trinta anos já estaria no fim da vida com dois filhos e uma casa própria. Ao invés disso, tenho dois gatos, um canal no dente, e uma empresa, (está bem melhor do que imaginei, na verdade.)

Mas e você, quem você era no seu último carnaval?

Era mais feliz, mais triste, com mais dinheiro, menos chifres? (brincadeira, parei)

Acho que a pergunta essencial é se você trocaria de lugar.

Você voltaria para onde estava no último carnaval?

Não?

Então coloca um glitter nesse corpo e vai pro bloquinho, minha filha.

Que a sua vida mudou e foi pra melhor.

#Aldeia Literária

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COMO LIDAR COM SERES HUMANOS E PLANTAS https://camilaveloso.com.br/como-lidar-com-seres-humanos-e-plantas/ Thu, 20 Feb 2025 15:41:31 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1490

Se eu disser o que ela quer ouvir, ela vai gostar de mim, foi o que a minha cabeça de seis anos de idade pensou quando a amiga da minha mãe se agachou na minha frente e  me perguntou o que eu queria ser quando crescer. Eu disse que queria ser professora, porque ela era professora, meus pais também, parecia ser a resposta certa.

E era.

Ela abriu o maior sorriso do mundo para mim e depois se levantou para falar com meus pais. Foi assim que o conceito de agradar entrou na minha lista de como lidar com seres humanos, e na verdade é uma das únicas coisas que sei que realmente funciona.

Porque eu não sei lidar com seres humanos e plantas, não sem tentar agradar.

Eu não sei me apaixonar, eu não sei negociar o preço da roupa, do sapato, a hora certa de regar as plantas e o ego dos homens. Eu não sei ser gentil com quem gosta de mim e malvada com quem não gosta, eu troco tudo. Sou gentil com quem não gosta de mim e acho que tenho a liberdade de esculachar quem me ama, repetidas vezes, não era isso que era ser vulnerável?

Não, não é.

Já tentei colocar outros itens na minha lista, algo que me ajude a lidar com os humanos à minha volta, mas eu não percebo algo, o que não me ajuda. 

Aham, algo.

Alguma coisa, algo.

As pessoas aprendem a lidar umas com as outras percebendo isso que não percebo, é um cheiro, um som, mas não é um cheiro ou um som, é um outro sentido que as pessoas tem, um que diz pra elas quando é a hora de ir embora, quando alguém tem má índole, quando o que disseram é irônico, dúbio, é um tecido aberto no céu que diz para todo mundo menos eu quais são as regras, eu sempre perco, digo algo aleatório, e não sei onde o tecido abriu, qual palavra naquele sorriso denotava o erro.

Tudo o que eu sei fazer é escrever e analisar, pensar mil vezes no que aconteceu para tentar aumentar minha lista (ou habilidades sociais).

A lista começou quando eu tinha seis anos.

Todos os dias eu chegava em casa e escrevia algo, principalmente quando eu errava. Quando eu dizia algo errado eu anotava e elaborava os motivos do porque.

Era pra ter ido embora mais cedo, era para ter parado de rir da piada, não era para ter feito piada com a morte do gato, aquilo que ele disse sobre ir para a França era mentira, ironia, algo assim, prestar atenção, atenção.

A lista foi ficando mais difícil de aumentar com o passar dos anos, principalmente quando comecei a querer beijar na boca. Era um tal de era para ter olhado para ele por mais tempo, era para ter sorriso, era para ter falado mais baixo, era para saber flertar, como é difícil, por favor, Deus, me mostra alguém doido igual eu, do contrário eu vou acabar sozinha.

Será que existe alguém como eu por aí?

Achei que criar plantas seria a solução para a minha solidão, mas elas morrem antes que eu consiga anotar quais são as regras, é pior ainda.

Plantar, regar, regar e regar, e elas morrem.

Morrem, sempre morrem, alguém me diz o que eu fiz de errado?

A diferença entre lidar com plantas e humanos é que os humanos sempre têm um erro para te apontar, o que pode ser reconfortante.

Mas as plantas… elas te deixam descobrir sozinha, mas quando você passou uma vida sem entender do que todo mundo estava rindo, descobrir sozinha é sinônimo de um ataque de pânico.

Não descobrir soinha é o segundo item da minha lista.

 

#Aldeia Literária

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COMO VIVER FORA DA SUA CABEÇA https://camilaveloso.com.br/como-viver-fora-da-sua-cabeca/ Thu, 06 Feb 2025 22:57:06 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1475

Minha cabeça é como um estádio lotado. 

São cem mil vozes ao mesmo tempo, todas elas gritando, me perguntando: ele respondeu? Não.

Preciso comprar pão, um vestido, ganhar bunda na academia, meus gatos podem estar doentes, não respondi aquele aluno, aquele aviso dos contadores, da manicure.

E agora ele me respondeu, o que respondo de volta? 

Preciso fazer um bolo pra ter uma sobremesa, fazer xixi e depois pensar porque aquela garotinha  me achou ridícula quando eu estava no jardim dois.

Preciso me arrumar, preciso ser bonita, o chão precisa ser lavado, limpar meus dentes, o meu suvaco, lembrei de pegar o celular, acho que minha avó me ligou e esqueci de responder.

Respiro fundo.

Macarrão, sal, preciso lavar o tapete, o cabelo, será que mandei a mensagem certa para ele, eu estava mesmo bonita o suficiente?

Vou colocar na minha agenda uma tarefa para descansar, aham, meditar, assim ganho uns poucos segundos de paz.

Então sento, cruzo as pernas, relaxo os ombros, fecho os olhos e repito algo que inventei, eu sou uma farsa, vi no tik tok, se eu disser que vi no youtube melhora?

Respiro, um segundo, está tudo bem.

Expiro, um segundo depois do outro porque você viu se desligou o fogão? Você nem ligou hoje, mas e se estiver ligado desde ontem?

Respiro, um segundo, está tudo bem.

Expiro, um segundo e os gatos podem estar mortos de tanto respirar o gás do fogão que está ligado, com certeza está ligado.

Respiro, um segundo, está tudo bem.

Expiro, um segundo sem pensar em qual roupa vou usar para ver o crush, neh, já que não tenho roupa boa e não compro nada desde 2016.

Respiro, um segundo, está tudo bem e me levanto, se as meias estiverem mesmo sujas lascou, aí o guarda roupa vai feder, ficar ardido, e não vai dar pra receber ninguém aqui em casa, droga, droga, droga, porque deixei as meias sujas? 

Vou até a gaveta, elas não estão sujas, não sei porque achei que isso tinha a ver com o trauma dos meus pais, agora não consigo elogiar ninguém e nem lavar a cabeça de noite.

Eu deveria pensar menos, viver fora da minha cabeça, será que isso existe?

Como é viver fora da sua cabeça?

Sua cabeça?

É minha, eu acho. Minha e das outras cem mil vozes. 

 

#Aldeia Literária

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Meus Próprios Sonhos Que Vi No Instagram https://camilaveloso.com.br/meus-proprios-sonhos-que-vi-no-instagram/ Thu, 30 Jan 2025 23:36:51 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1469

A voz da atendente parecia robótica, não sei se era alguém de verdade ou um robô do outro lado da linha.

– Alô, Planos de Vida, boa tarde.  

Digo a frase que ensaiei mentalmente antes de ligar: 

– Oi, boa tarde.  Gostaria de cancelar meu plano padrão de Vida Adulta Feliz, por favor.

– Cancelamento, ok,  existe alguma reclamação, senhora? 

– Ah, sim, é que na verdade não acho a dinâmica do Vida Adulta Feliz funcional, sabe?

–  Em que sentido, senhora?  Talvez  possamos resolver o problema.

– Não sei se dá para resolver, mas é  que segundo o folheto, o plano Vida Adulta Feliz vai me fazer passar da Juventude Rebelde Sem Causa para o Respeitados Adultos Realizados. E para isso eu preciso de uma graduação. 

– Exato, esse é o início. – Ouço ela digitando algo no teclado do computador. Tento explicar meu ponto pausadamente.

– Uhum, e depois de um mestrado e uma pós-graduação que, segundo o folheto, pode ser um curso de extensão simples. 

– Sim, senhora, lembrando que isso é no plano feminino especificamente.

– Ah é? – Paro de falar e pego o folheto na bolsa, não sabia que tinha diferença no plano de vída vendido para homens.

– Sim, senhora, incluímos isso porque mulheres precisam ter 2 anos a mais de estudo para uma possibilidade de concorrer a cargos de chefia.  Porém é só para os cargos, a gente não consegue garantir a igualdade de salários. 

– Sei… – respondo, sem entender porque tanto esforço se eu não teria mais dinheiro, mas sigo na minha linha de raciocínio inicial. – E daí depois preciso de um emprego, um emprego bom, flexível, que me dê dinheiro para viajar nas férias com a família. E nesse meio tempo da graduação e mestrado preciso constituir família, da qual serei a matriarca, o que custará tá escrito aqui, 20 anos trabalhando árduo e sem nenhum retorno em prol dos filhos…

– Isso, mas só uma pausa. Esse é um adicional do plano Mãe e Mulher Realizada e Completa. Colocamos esse item nesse plano para nossos clientes que não querem pagar por dois. Ou seja, dois por um, senhora.

– Isso, isso, e nesse plano só estarei livre daqui a 20 anos, quando meus filhos começarem a seguir esse mesmo caminho da felicidade. 

– Isso…

– Pois é, só que tem um problema. 

– Problema, senhora? Em qual parte? A senhora leu tudo tão bem… 

– Sim, mas… Não tem espaço para a bagagem.

– Bagagem?

Pela primeira vez, a mulher fala num tom humano de dúvida. Acho que chamei a atenção dela. Então sigo falando.

– Isso. Quer dizer, onde me encaixo? Onde eu coloco minha bagagem de vida e sonhos? 

– Aaah, entendi! Você quer um plano personalizado. Bem, nós temos isso, mas são poucos os que compram.  Custa 1 milhão de reais, senhora . 

Quase engasgo, só consigo repetir o número.

– UM MILHÃO?

Ela expira de uma forma que só um sorriso faz. Está rindo de mim enquanto fala…

– Sim, é caro mesmo. Tenho seu registro e vejo que você é da classe média. Sua classe geralmente fica feliz com o plano padrão de Vida Adulta Feliz, viu. Ou então, no caso das mulheres, investem no plano Mãe e Mulher Realizada e Completa com um adicional do Marido Rico que Sustenta. 

– Uhm… tá. Mas não tenho esse dinheiro…

Ela volta com a voz robótica.

– Entendo, senhora. 

– Não tem mesmo espaço para bagagem?

– Infelizmente não, senhora. Nosso plano é um pacote completo, se quiser assinar… 

– ai, Não quero. 

– Oi?

– Não quero assinar. quero só cancelar mesmo

– Ah, sim, mas… Não vai querer nenhum outro Plano de Vida, senhora?

– Não.

– E vai fazer o que? – Agora ela soa quase como a minha mãe e olho para o telefone, para garantir que liguei no número certo.

– Sei lá. Eu escrevo…

– Escreve? Mas como isso vai te dar uma boa graduação, emprego, marido e depois filhos para poder contar para as amigas que é mais bem-sucedida que elas?

– Han? E sobre isso que se tratam os planos, contar para os outros? 

– Ué, senhora, porque acha que inventamos o Instagram?

– Para ganharem dinheiro? – Eu honestamente nunca tinha pensado no motivo das redes sociais existirem, só no fato de que… existiam e pronto. Ela me explica:

– Sim, senhora, e manter a população ocupada, neh.

– Ocupada, mas porquê ?

– Porque a maioria, senhora, não sabe o que quer e também não consegue decidir, e daí se matam e isso dá prejuízo para a empresa e…

– Ah,  prejuízo, sei… Mas não se preocupe não, eu sei o que quero. 

– Ah, sabe, senhora? E porque tem aqui no seu registro que você chora às vezes de noite? 

–  O QUE? Como você…

– Nós sabemos de tudo, senhora, é assim que fazemos os planos. 

– Isso é… Que seja, eu choro mesmo, e daí? É só  medo de dar errado mas eu sei o que quero.

– Ah, sabe? – Ouço a lixa nas unhas dela. Aposto que tinha até fechado o computador e isso me deixa com raiva. Respondo de forma confiante.

– Sei! 

– Ok, mas e  se realmente der errado, senhora? Vai fazer o que?

– Vou tentar de novo, ué.

– Tentar de novo? – Ela fala como se eu tivesse dito a coisa mais estranha do mundo.

– Isso

– Uhm… Ok. Mas, tem certeza de que não teve essa ideia de algum anúncio, senhora? Nós somos ótimos em vender sonhos e ideias falsas. A maior parte de nossos clientes adoram pensar que a ideia é deles, mas não é. E se esse for o caso, me permita apresentar o pacote Vou Seguir Meus Próprios Sonhos Que Vi No Instagram. Já conhece os benefícios?

– Já sim, não é para mim. Não entro muito no Instagram… Só quero cancelar mesmo.

–  Entendo. Bem, podemos cancelar, é claro, mas você precisa de um plano, certo? Um plano com garantia…

– Ah, tem garantia de que vai dar certo?

–  Na verdade não, senhora,… Só que  você ficará triste apenas o suficiente para descontar na comida, bebida, ou alguma outra substância. E isso te manterá viva. 

– Ah…

– Parece ruim, eu sei, senhora, mas é o plano mais eficaz até agora. Mais de 5 bilhões de pessoas experimentaram e estão vivas!

Respiro fundo, buscando palavras, mas só consigo dizer…

– Uau…

– Eu sei! E então, vai querer continuar? 

–  Não, tenho outro plano. Bolei esse sozinha, na verdade, mas enfim, esse plano já está cancelado? 

– Um segundo e… Sim. Está sim, senhora, mas…

– Mas…?

– Boa sorte. – Ela diz, e acho que está mesmo sendo sincera e não debochada.

– Obrigada. 

– Você sabe que pode dar errado,  não é? Tipo, de verdade, senhora! 

– Sei sim. 

– Ok. 

– Ok. 

– É isso. 

– Sim. Eu ligo quando puder fazer negócios com vocês.  Vender meu próprio modelo de planos quem sabe e… 

– Sim, sim, claro, senhora,… – volto a ouvir o barulho da lixa. Ela não está nem aí.

– Ótimo. Boa vida para você.

– Para você também. 

– Tchau. 

– Espera… Qual seu nome, senhora? Senhora… 

– ………

 

#Aldeia Literária

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Como adultos fazem amigos https://camilaveloso.com.br/como-adultos-fazem-amigos/ Thu, 23 Jan 2025 19:05:54 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1450

Eu não quero ficar sozinha esse ano, era a frase que eu repetia enquanto passava chapinha na minha franja pela décima vez. Eu estava na quinta-série, era 2006.

Tinha mudado de cidade pela quinta vez em seis anos, e já morava naquela cidade há um ano, sabia as regras. As meninas populares usavam fichários grandes, mochilas de lado, franja e brincos. Naquela cidade, eu já tinha observado, o legal era fazer inglês e ter o conjunto de 24 cores da Faber Castell, algo conquistável eu diria, já que nas outras cidades as crianças valorizam coisas como ter Nickelodeon em casa, comprar roupas numa loja chamada João e Maria, usar aparelhos.

Mas essas eram as crianças da capital.

Ali, no interior, eu sabia que se tivesse pelo menos uma franja, um fichário, brincos, e mochila de lado, eu seria alguém, então me dediquei no que podia. Meus pais eram crentes, muito crentes, então eu não podia usar brincos, colares, qualquer tipo de jóia.

Por isso apostei tudo na franja, fichário e mochilas de lado, tudo rosa e da Capricho (a Capricho era a única coisa que faria todas as meninas esquecerem das minhas orelhas sem brincos).

Acordei cedo, arrumei o cabelo, passei chapinha na franja e lápis preto no olho.

Cheguei cedo na escola, mais cedo que todo mundo porque meus pais eram os diretores, as outras crianças só chegavam dali a uma hora, então esperei, imóvel no sofá da na secretaria.

Imóvel, minha franja não podia ficar suada, elas precisam me achar legal, eu pensava.

Dessa vez precisa funcionar, repito.

Dessa vez eu vou ser legal.

Aquela era a minha chance porque estávamos todos indo para o ensino fundamental dois, uma grande mudança do ensino fundamental um.

Se você é novo demais para saber do que estou falando… em 2006 o sexto ano era chamado de quinta-série e era um GRANDE PASSO  na vida de todo adolescente. A quinta-série era a série em que a gente deixava de ser crianças. A gente teria aula com vários professores, e não com uma professora só, como as criancinhas do jardim.

Agora tínhamos apostilas, fichários, e não precisávamos fazer fila e dar a mão para a professora depois do recreio.

Tudo mudava na quinta-série, e por isso ACHEI que tinha uma chance melhor de ter amigos (eu já tinha falhado miseravelmente na quarta-série, um ano antes).

A hora de espera passa, as outras meninas começam a chegar, vão para a nossa nova sala. Respirei fundo.

Vai lá, Camila.

Coloquei minha mochila de lado e tentei manter um sorriso no rosto enquanto andava pelos corredores. Alguns monitores me cumprimentaram no caminho, e só acenei de leve com a cabeça, como se estivesse calma.

Chego na sala, algumas meninas já estão sentadas.

Droga. 

A escolha da cadeira era decisiva porque eu me conhecia, só ia conseguir fazer amizade com o pessoal que sentava perto de mim, era sempre assim, e  as meninas na frente estudaram comigo no ano passado.

Lara, Iara e Olívia, a santa trindade.

Lara tinha os cabelos presos em uma trança milimetricamente penteada, cheia de gel. Ela era a inteligente. 

Iara tinha os cabelos ondulados soltos, e me olhava de cima a baixo. Ela era a que tinha peitos. 

Olívia deu um sorrisinho porque os pais dela também eram crentes, mas ela só me deu um risinho mesmo. Ela não queria andar comigo, a filha do diretor, quietona.

Olho para o canto direito da sala, onde Tamara e Bruna estão sentadas. Elas eram as meninas que tinham peitos E dinheiro, e nem mesmo Iara conseguia andar com elas.

Preciso mirar nas meninas novas, que não são muitas.

As coisas aceleram a minha volta.

Mais e mais crianças andam e entram na sala, sentam sem nenhum critério, preciso ser rápida.

Olho para uma menina de cabelos pretos, olhos longos, lápis preto no olho, séria.

Me aproximo.

– Oi – É o que consigo dizer, enquanto sento na cadeira do lado dela (achei que sentando do lado teria uma chance melhor de conversar com ela).

O nome dela era Mariana, eu descobri no fim da primeira aula.

Mariana gostava de vôlei e de bandas japonesas, e deixei ela me contar tudo sobre isso. Achei que estava indo bem, sabia que as pessoas gostavam de falar de si mesmas, até que ela me fez uma pergunta.

– Acha que o Thiago beija bem?

Ela me olha curiosa e congelo. Thiago era meu crush desde o ano passado, e falar de beijo citando o nome dele era a coisa mais assustadora da minha vida. Não consegui responder, e Mariana arregala os olhos.

– Você já beijou, neh?

Novamente, não consigo verbalizar nada, mas faço não com a cabeça.

Mais tarde naquele dia, ouvi Mariana falando sobre beijos com a Tamara, a loira rica com peitos que sentava do outro lado da sala.

Mariana mudou de lugar depois desse dia.

Mas tudo bem porque a Bruna me pediu uma borracha emprestada e me deixou orbitar em volta dela por um ano depois disso.

E eu fiquei me perguntando… Como é  que adultos fazem amigos?

Talvez eu tenha uma chance melhor quando eu crescer.

 

#Aldeia Literária

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Por que pessoas incríveis ficam sozinhas https://camilaveloso.com.br/por-que-pessoas-incriveis-ficam-sozinhas/ Thu, 16 Jan 2025 19:25:55 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1444

Você é uma pessoa incrível e provavelmente não aceita isso.

Acertei?

Está tudo bem, a maioria de nós ouve aquele trecho “eu sou foda e ele é burro” da música da Anitta como um mantra no qual a gente tenta acreditar, a gente sempre tenta, neh.

E eu te entendo, também cresci num ambiente que me fazia duvidar das minhas próprias capacidades, e naquela época me diziam que isso era “ser humilde”. 

As pessoas que diziam que eu deveria ser humilde quanto ao meu potencial gostavam de repetir um versículo específico de um livro sagrado milenar, e o versículo dizia “mulher virtuosa, quem a achará?”, como se fosse algo muito difícil. 

Para aquelas pessoas, mulheres incríveis eram como um diamante perdido. 

Para achar uma que preste precisa cavar muito, por muito tempo, tudo com jejum e orações, porque realmente uma dessas não fica por aí, dando sopa, o que pressupunha que eu não poderia ser uma dessas.

Era tão difícil de achar, eu deveria ser só mais uma pedra qualquer, e recebi esse tipo de palestra desde os cinco anos de idade.

Imagina o efeito que isso teve na minha mente!

Garantiram salário eterno para minha terapeuta, e levei um tempo para perceber que esse discurso era apenas uma grande mentira.

Mulheres, homens, pessoas incríveis são fáceis de achar, ficam dando sopa por aí sim, inclusive, mais do que deveriam.

No último ano, vulgo 2024, convivi com algumas pessoas incríveis que o mundo ainda vai conhecer através da literatura, e a coisa mais triste é que nenhuma delas sabe que é incrível.

Vou dar exemplos.

Uma dessas pessoas tem livros com mais de meio milhão de leituras no Wattpad e se pergunta se alguém vai querer ler suas histórias quando ela publicar livros físicos.

Outra tem a dicção da Fátima Bernardes com o carisma da Tatá Werneck, e se pergunta se ela deveria gravar mais vídeos para a internet (ela tem medo de flopar).

A outra está escrevendo um romance com BDSM, num tom mais sério e se pergunta se alguém vai ler, porque ela nunca leu algo parecido.

E ainda tem outra pessoa que criou uma fantasia distópica brasileira gay com jovens com poderes que só não foi publicada ainda por medo de ninguém querer ler.

Eu juro, metade do meu trabalho é dizer para estas pessoas incríveis que elas são incríveis várias e várias vezes durante o mês, e quase todas as vezes elas me olham tristes.

Não acreditam em mim.

Acham que estou sendo uma mentirosa gentil, e eu só queria poder dizer que eu não sou uma mentirosa gentil.

Gente.

Na minha família eu sou conhecida por ser a boca de sacola, a que é afrontosa, a de esquerda, a que escolhe fazer as coisas da forma mais difícil, a que acha que todo mundo precisa de mais arte, e eu realmente acho, mas esse não é o ponto. O ponto é que eu não conto mentiras para deixar as pessoas felizes.

Eu sou sempre honesta, essa é a minha red flag, será que podemos entender isso?

Mas eu entendo essas pessoas, porque toda vez que alguém diz que eu sou incrível a minha primeira reação é dar risada.

RI-SA-DA.

Meu cérebro foi tão traumatizado que o pensamento de ser incrível é associado a uma piada, porque eu, inteligente, capaz, decente, virtuosa? Essa pessoa só pode estar gravando, é uma pegadinha.

Não, você não pode achar isso de verdade, ainda não viu meu pior lado, espera só para ver meus comentários no novo lançamento da Netflix, eu digo coisas horríveis!

Então pode parar, você não pode me achar incrível, não, eu nem tenho tantos anos de análise, e blá blá blá, eu afasto as pessoas com a uma facilidade menina, até eu me surpreendo com meu próprio talento.

Talvez eu não seja sempre tão honesta afinal, nunca falo sobre meu medo de ser vista, amada, minimamente gostada.

Entende o que eu quero dizer?

No fundo, além de não acreditar em mim, também acho que tudo isso vem da crença que se eu fosse realmente incrível, o sucesso, amor, seria mais fácil, inevitável, simples.

Se eu sou incrível, porque não tenho muitos amigos?

Se eu sou incrível, porque as coisas não dão certo mais fácil?

Porque não sou mais celebrada nas minhas conquistas, porque não sou a pessoa mais famosa da internet?

Eu sei, patricinha, eu sei.

Infelizmente ser foda como somos não é garantia de nada, e isso é muito triste, mas de tudo o que isso pode significar para a sua vida, a única coisa que NÃO significa é que você não é incrível.

Calma, me perdi nas palavras, vou tentar de novo.

Você é incrível mesmo que o sucesso não venha imediatamente até você.

Você é incrível mesmo no escuro, na solidão, especialmente na solidão, porque isso acontece quase sempre, não é? Quase sempre você fica sem ter para quem ligar, sem alguém que te entenda de verdade, que te priorize como você prioriza os outros.

Mesmo aí, bem aí sem ninguém, você é incrível, só queria que você soubesse.

Ninguém fala sobre a solidão das pessoas incríveis, neh?

Mas ela existe.

Porque a gente acaba sendo a pessoa estranha que pensa demais na carreira, em livros, viagens, o que quer te torne incrível e que pareça demais (sabe, quando dizem que você faz isso demais).

Eu sinto muito.

E honestamente, ao contrário do ditado popular, espero que você se esqueça, apague da memória todas essas pessoas que te isolaram quando você ficar milionária.

Como já dizia aquela menina do Tik Tok, às vezes você é que tem que ser o karma que volta.

Gratidão.

#Aldeia Literária

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Você tem certeza que calça esse número? https://camilaveloso.com.br/deu-tudo-errado-em-2024-copy/ Thu, 19 Dec 2024 18:27:41 +0000 https://camilaveloso.com.br/?p=1429

Fabi dá risada quando peço uma sandália número 38 para o moço da loja.

– Você é tão engraçada, Camila. Fala logo seu número verdadeiro pra ele.

Olho para minha amiga confusa, o moço espera um novo número sair da minha boca, mas tudo o que consigo dizer é:

– 38

Faço que sim com a cabeça para que ele acredite em mim, para que ignore Fabi e sua risada, e ela só para de rir quando ele vai embora.

– Peraí, você não pode estar falando sério, Camila. 38? Você não pode calçar 38!

Dessa vez sou eu quem dá risada.

– Não posso? Fabi, esse é meu número.

– Não, não é, Camila.

– Mas… o que é isso, algum jogo? É uma piada nova, tipo como a geração z inventou mil formas de falar juro?

– É, nesse caso você jurou neh, Camila.

Fico em silêncio, espero o moço chegar com a sandália, apenas ela seria a prova de que meu número era mesmo 38. Porque ela estava falando aquilo, PORQUE eu iria MENTIR meu número?

O moço chega, se ajoelha na minha frente, me dá a sandália.

Coloco a sandália nos pés satisfeita, olhando Fabi por cima do queixo.

Ela tem as sobrancelhas levantadas, como se dissesse “viu”. Mas não sei do que ela está falando, a sandália entrou no meu pé.

Ela verbaliza a expressão.

– Viu, Camila, falei. 38 é pequeno pra você.

– O que, mas meu pé entrou. Eu calço 38, Fabi.

– Camila… – Ela aponta para o meu pé – Olha o segundo dedo do seu pé, ele está torto, virado para o lado. Significa que está sendo apertado.

Olho para meu dedo, ele é mesmo torto, como ela fala, mas Fabi não sabe que ele é assim mesmo SEM a sandália. Tiro a sandália e fico de pé, para que ela veja meus dedos.

– Meus dedos são assim mesmo, Fabi. Olha.

Fabi olha para meus pés como se eles fossem monstros, os olhos tão abertos que tenho medo do tempo que ela fica sem piscar.

Ela respira fundo, depois junta as mãos, como se fosse fazer uma oração.

Amiga, – Sim, ela me chama de amiga, a palavra que usa quando quer me dar uma notícia horrível – … você sabe que isso não é normal, não sabe? Dedos não são naturalmente tortos. Isso é sinal que você está apertando seus pés há muito tempo.

– Como assim, todo mundo tem os dedos dos pés tortos para o lado. Deixa eu ver o seu pé.

Fabi tira o sapato, depois a meia, e seus dedos retos aparecem no chão, o que me embrulha o estômago. Eu nunca tinha visto algo tão horrendo. Dedos retos, RETOS! O que era aquilo?

– Fabi, porque seus dedos são retos?

– Porque EU calço 38, Camila.

– O que, mas eu também!

– Camila, você é quase 15 centímetros mais alta que eu. Não pode calçar 38.

– Eu não sou tão mais alta…

– Camila, você tem quase um e oitenta. E tenho um e sessenta e tantos. Que sentido faz a gente calçar o mesmo número?

– Ahm….

Tento argumentar, mas realmente, fica difícil vendo os dedos estranhamente retos dela e até respiro fundo, tentando pensar em algo, mas aí vejo o moço da loja olhando para o meu pé com a mão na boca. Encolho meus dedos dos pés, tortinhos. Fabi segue falando.

– Amiga, coloca a sandália de novo, olha só… – Ela espera eu calçar a sandália, o que demora um pouco porque o moço segue lá, com a boca coberta, mas depois de um minuto eu faço o que ela diz. Ela segue falando que… – Tá vendo como a lateral do seu pé está quase na costura da sandália? Um pé 38 não chega aí, para á dois centímetros desse ponto. E olha o seu calcanhar, a parte redonda nem cabe na sandália…

– Mas é a forma desse sapato.

– Não, Camila, seu pé que é maior. Você calça 40, com certeza.

– O QUE? 40?

O moço saltou com meu grito, mas depois fica em silêncio, fazendo que sim com a cabeça, a boca fechada.

 Não consigo aceitar, argumento.

– Mas 40 é tamanho de pé de homem, Fabi.

– Camila, você tem quase um e oitenta, você é uma mulher com o tamanho de um homem.

– Para!

– Mas Camila, você é grandona mesmo, sempre foi! O que é isso agora? Porque está calçando um número menor?

– Eu não estou eu… eu sempre achei que calçava 38, todos os meus sapatos são 38.

– E todos eles te machucam?

A pergunta dela me acerta em cheio no estômago, não sei que expressão colocar no rosto. Sim, todos os meus sapatos tem uma forma pequena, mas é a forma, eu dei azar na hora de comprar, e quanto mais argumento na minha cabeça, mais me sinto patética.

40 é o número que vem voando até mim, para em cima da minha cabeça, como se fosse uma coroa. Eu era mesmo daquele tamanho?

Compro a sandália 40, saio da loja com a sacola e com o número, tão tão pesado. Mas na verdade, não era o número que era pesado, era a pergunta com ele. Porque fiz isso comigo mesma por tanto tempo?

Não consigo dizer mais nada durante aquele passeio no shopping, Fabi precisa sustentar a saída com seu carisma. E ela sustenta, e nós entramos no uber e voltamos para casa, e quando chego em casa olho meus sapatos antigos e só consigo pensar que vou precisar jogar todos fora, mas em seguida penso que foda-se, isso é um livramento.

Foi meu ex que meu a maioria desses sapatos, agora pelo menos me livro de tudo o que ele me deu.

Até o último centímetro de dor.

 

#Aldeia Literária

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