No último carnaval eu era beijoqueira, e você?
Era 2022, o mundo tinha acabado de se curar da pandemia, uma garrafa de corote e glitter no olho era tudo o que eu precisava para ser feliz.
Sem água, sem engov, sem cachorro quente no final do rolê.
Eu morava no centro de uma cidade universitária, todas as repúblicas eram em volta da minha casa, e o maior bloquinho da cidade passava na avenida, também do lado da minha casa.
Era descer as escadas, pular carnaval e voltar em segurança mesmo quando eu estava tão bêbada que confiaria em qualquer pessoa que sorrisse para mim.
Foram bons anos.
Me lembro que nesse último carnaval eu disse, durante uma festa, que era meu aniversário (eu faço aniversário dia 12 de março) e alguém apareceu com uma garrafa de Velho Barreiro que eu virei na garganta por vinte segundos (era para ser vinte e sete mas eu não aguentei)
Depois disso comecei a namorar um calvo de oitenta quilos sem ambição na vida e embarquei numa jornada de redenção e aprendizados (quem nunca), e depois de ressurgir como a fênix mais gostosa que conheço, estou pronta para mais um carnaval (outro evento canônico na vida de toda recém solteira. Embora eu já esteja solteira há um ano, enfim…).
Faz três anos que não pulo carnaval e muita coisa mudou desde então.
Para começar, vou fazer 30 anos e o engov é meu melhor amigo agora. Cachorro quente antes e depois do rolê, um copo de água a cada dois drinks.
É, Camila, agora você é adulta, e pelo menos a academia ainda te salva da dor nas costas e no joelho, vai pular em paz nas festas de 2025, pelo menos isso.
Agora preciso de um penteado bem justo para me sentir bonita e uma doleira porque sou eu quem paga as parcelas do celular (antes, quando minha mãe me dava o celular de presente de natal eu não sentia tanto o valor de um celular, sabe. Eu só carregada no shorts mesmo, inconsequente, eu sei).
Mas em minha defesa, não é só isso, é que agora preciso justificar tudo para a minha contabilidade, (alô alô, agora ela é empresária), então doleira por dentro da calcinha, shorts e uma pochete por fora com uns trocados para o ladrão que está ali trabalhando na folia, claro que sim, uai.
Não esperava passar esse carnaval assim.
Fui criada na igreja, eu achava que com trinta anos já estaria no fim da vida com dois filhos e uma casa própria. Ao invés disso, tenho dois gatos, um canal no dente, e uma empresa, (está bem melhor do que imaginei, na verdade.)
Mas e você, quem você era no seu último carnaval?
Era mais feliz, mais triste, com mais dinheiro, menos chifres? (brincadeira, parei)
Acho que a pergunta essencial é se você trocaria de lugar.
Você voltaria para onde estava no último carnaval?
Não?
Então coloca um glitter nesse corpo e vai pro bloquinho, minha filha.
Que a sua vida mudou e foi pra melhor.
#Aldeia Literária