Camila Veloso

A parte boa de ser uma mulher independente é que posso pagar as contas, ficar feliz, beber uma cerveja porque fiquei feliz, baixar aplicativos de relacionamento porque fiquei bêbada, e escolher a minha nova personalidade de acordo com o homem que eu encontrar no aplicativo.

É ótimo.

Estar bêbada nesse momento ajuda muito a entrar no personagem, porque você precisa de um personagem para encarar um date com um homem completamente estranho que colocou dez fotos num aplicativo e escreveu “tentando descobrir se existe amor em SP”.

(suspiro).

Não é fácil ser uma patricinha solteira, sabe.

Todo mundo ficou zuando a menina do pre-drink, mas ela estava certa.

A diva era uma visionária que entendeu tu-do, ela andou para que nós pudéssemos correr, e plim, dei um match.

Beleza mediana, cabelo ruivo, trabalha em uma empresa na Avenida Paulista, ele fez questão de incluir.

Tudo isso significa que preciso ser burra.

Na verdade, eu sempre preciso ser burra quando estou saindo com caras do aplicativo, mas se ele fez questão de colocar que trabalha numa empresa  da Avenida Paulista, preciso ser uma patricinha ainda mais burra.

Inocente, eu diria vai, para ele conseguir me impressionar (já falei que ele trabalha na Paulista?). Não sou tão boa atriz a ponto de esquecer todos os livros que li, não importa o desespero para transar, então dessa vez, serei uma patricinha tola, que não sabe nada de São Paulo.

E não me olhe assim, não estou mentindo, cheguei há quatro meses, meu enredo tem sim um fundo de verdade. 

Tudo é verdade? Não.

Minha avó mora em São Paulo e na verdade conheço bastante coisa da cidade, mas hoje eu só quero transar, uma transa bonita para passar no telão do céu, quando nossos pecados serão revelados (você já sabe), então me arrumo e pego o metrô (sim, tive que ir de metrô) e quando chego, ele não está lá.

Sim, ele se atrasou uma hora e meia.

UMA.

HORA.

E MEIA.

Segui firme no meu propósito, eu precisava ir para o céu, e até consegui pular três tiragens de tarot que passaram no meu Tik Tok enquanto eu esperava la em baixo no metro.

Quando ele chegou, entrei no clima.

Tropecei na escada rolante, caí em cima dele, dei uma risadinha e disse que não entendia nada daquela música cubana que estava tocando no bar que ele me levou. Detalhe, eu morei no México por seis meses e todo mundo lá tira férias em Cuba, fala de Cuba, escuta músicas de Cuba, mas eu?

Imagina, imaculada!

Jamais ouvi nada disso, dessas músicas, ni siquera sé hablar! Imaginate, pensar en um plan tan complejo. No!

Estamos numa crônica, então já vou dizer que quando volto para casa, sem meus orgasmos, ligo para Fabi, a única alma que poderia me consolar. Ela me atende ansiosa.

– E aí, bicha, já está voltando pra casa com a calcinha na bolsa?

– Infelizmente nem tirei. Não rolou nada, amiga.

– Camila, não me fala uma coisa dessas!

– Pois falo, Fabi. Nem um beijinho.

– Que? Mas amiga, você estava linda, eu vi as fotos no close friends!

– Eu sei, Fabi, mas acho que fui meio inteligente.

– Oi?

Você já sabe que é agora que a Fabi lembra que eu sou meio doida. Não sei porque ela segue sendo minha amiga, ás vezes acho que ela me considera um experimento social. Ou só economizo assinaturas em canais de streaming, já que sirvo entretenimento. Respiro fundo, pronta para explicar.

– Eu não consegui me fazer de tontinha, sabe. Já fui falando da minha empresa, dos números…

– Ai, Camila, você falou dos números da sua empresa?

– Mas é que ele começou a falar de salário! E de como se cria uma empresa, porque queria criar uma…

– Amiga, mas eles falam isso para sentir que o pau deles é maior! Não era um convite para você falar do seu salário!

– Eu me deixei levar, Fabi. Mas já estou pagando pelos meus pecados aqui, com a calcinha no corpo ainda.

– Ô, mulher… eu sinto muito, viu. Estava com esperança! Tem que performar mais.

– Eu estou tentando, Fabi! Será que se eu fosse burra eu iria beijar mais na boca?

– Olha, mas com TODA certeza, Camila.

– Nossa…

– Camila, tô sendo sincera. Imagina, esse cara falou do salário que ele ganha e você foi lá e falou que você fundou uma empresa, sabe. O pau dele deve ter encolhido tanto que ele está tentando achar até agora.

Uma risada me escapa, novamente não porque achei engraçado, mas porque eu gosto de ter esse efeito nos homens. Afinal, quem ele pensa que é?

Eu sei que eu sou uma patricinha linda, cheirosa, flexível. Tomei banho com meu shampoo bom e me lavei com bucha orgânica. Li livros sobre teoria da arte, política brasileira e a última biografia da Britney Spears.

Eu tenho o que oferecer, agora um homem?

Ele fez o que, jogou vídeo game o dia inteiro e tomou um banho antes de vir? Vestiu uma roupa limpa além de ensaiar como puxar assunto sobre o salário dele? E honestamente, não acho que o problema é falar do meu salário no meio do date, o problema é que a maioria dos homens se ofendem.

Juro, é muito difícil ser uma patricinha solteira hoje em dia. E não falo isso pelo o que acabou de acontecer, falo isso porque semana passada a Fabi me disse que eu precisava tirar a minha altura do aplicativo (tenho 1,78). 

Ela disse que era por isso que eu não conseguia muitos matchs, que os homens ficavam com medo, então tirei a minha altura e consegui cinco matchs no minuto seguinte.

Apesar da nossa amizade incrível, não consigo explicar para a Fabi que fingir é a minha qualidade mais nefasta. Sim, meu jeitinho é ser falsa no dia a dia, eu sei quais são as regras do jogo social, aquele que os neurotípicos jogam. Aquele de chegar-sorrir-beijar-no-rosto-dar-bom-dia-e-falar-do-clima.

Aquele de chegar-sorrir-perguntar-dos-namoradinhos.

Aquele de chegar-sorrir-perguntar-porque-não-tiveram-filhos-ainda.

Aquele do rir-da-piada-sobre-fechar-a-fábrica-de-filhos.

Aquele do chegar-sentar-não-falar-sobre-o-seu-salário-e-manter-o-decote-aberto.

Nesse jogo eu não existo, sou um personagem, e será que preciso ser falsa em todos os meus relacionamentos?

Transar (e existir) está cada vez mais difícil, e a filósofa contemporânea Anahi Colucci tinha razão. Como é difícil ser eu.

#Aldeia Literária