Camila Veloso

Bloco de carnaval, Belo Horizonte, 2025. 

Ela passa na frente de um carro estacionado, fica ali por um minuto para arrumar o top, o short, o cabelo, dar aquela olhada na bunda. Ela respira fundo antes de seguir andando com as amigas e tenho vontade de ir lá e dizer: parabéns, você é uma gostosa.

Será que ela sabe?

O grupo para, vão tirar uma foto, ela arruma o cabelo e assim que a foto chega ela faz que não com a cabeça. Tiram outra, na terceira ela respira fundo (vejo os ombros subindo e descendo de longe), sei que desistiu de tirar uma foto que considere boa. Duvido que ela tenha saído feia, é uma gostosa, está linda, eu sei, os quinze caras olhando para ela sabem, mas ela mesma… 

Está se olhando no reflexo de outro carro.

Eu deveria gritar “gostosa”, mas sei que um grito desses só assusta, e tento pensar em um argumento para chegar lá e dizer que ela é belíssima. 

É carnaval, será que eu preciso de argumento?

O trio começa a andar, em algum momento ficamos lado a lado, é a minha chance.

Chamo ela cutucando o ombro, ela vira.

Ofereço meu melhor sorriso.

– Você tá linda, amiga, uma gostosa!

Ela ri com as sobrancelhas tristes.

Sabe, aquela risada em que as sobrancelhas ficam tristes por um segundo, como se você tivesse recebido um elogio fofo de uma criança. Você não acredita na criança, e dá aquele sorriso. É esse o sorriso que ela me dá, mas já fiz a minha parte e sigo em frente.

Faço uma oração no minuto seguinte, peço que o universo mande todos os gays do bloco dizerem que a bunda dela é linda, que ela é gostosa, belíssima, e que ela consiga beijar um cara bonito para ter alguma validação masculina (foda-se ás vezes a gente precisa mesmo).

Depois de quinze minutos andando com o bloco, uma garota me cutuca no ombro e me diz “Você tá linda, uma gostosa”.

E só consigo pensar que receber elogios de estranhos é a melhor coisa do carnaval brasileiro.

 

#Aldeia Literária